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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Do escritor Joel Neto


REGRESSO A CASA

Um diário açoriano

de JOEL NETO


Olha que esse toiro aguinda!

CC Amoreiras, 3 de Junho
Olho a semana que me espera, cheia de aviões e aeroportos e crónicas escritas aos pinotes, em busca de rede e de ideias, e apetece-me parar por um momento. Entretanto, lembro-me de que daqui a pouco voltarei a não ter a possibilidade de ir ao cinema e decido parar numa sessão da meia-noite, nas Amoreiras – numa sala VIP, cá em baixo, onde aquela senhora simpática das pipocas me pergunta sempre pelos Açores, pela esposa e pelos livros.
Um dos problemas de viver na província é que raramente se tem acesso a uma cultura popular de qualidade. E o cinema é o pior. Na minha província, o cinema ou se segue pelas regras do engrandecimento radical, tornando-se às vezes trabalhoso, quase sempre elitista e, em todo o caso, inadequado a uma noite como esta, posto um fim-de-semana de trabalho intenso após o qual se impõe algum escapismo; ou então segue-se pelas regras do mercado, que na verdade é coisa que não existe e quase sempre o transforma num produto apropriado para mentecaptos ou imberbes, o que de qualquer modo não chega a servir de escape a alguém com dois dedos de testa.
Evidentemente, ir ao cinema à meia-noite não é ir ao cinema. Ir ao cinema à meia-noite, quando feito sozinho, é uma espécie de romaria interior, um momento de introspecção em que conta menos o filme do que as pipocas, porque se trata sobretudo de um homem que pensa no que fez e no que fará e, ao mesmo tempo, não pensa em nada nem – muito menos – espera chegar a uma conclusão: está apenas ali, a comer pipocas, às vezes sem ver o filme sequer, enquanto usufrui do silêncio e da solidão e do ruído benigno daquelas pipocas que o aconchegam e consolam. E hoje eu não estou sozinho só na minha fila: estou sozinho na sala, o que me faz sentir-me mais acompanhado ainda, o projeccionista e a senhora das pipocas e o segurança do centro comercial mobilizados apenas para zelar pela minha sessão da meia-noite.
É uma coisa que não se poderia fazer na província, mesmo que o cinema da província não fosse apenas para doutorandos ou mentecaptos. Ir ao cinema sozinho, isto é – e muito menos ir ao cinema sozinho à meia-noite, se acontecesse haver na província sessões a tal hora. De cada vez que tentei ir ao cinema sozinho na ilha, fiquei com a ideia de que não houve uma só pessoa na sala que não se deixasse a perorar sobre isso – que eu não tinha tido melhor que fazer num sábado à noite senão ir ao cinema sozinho, que provavelmente tinha convidado um monte de gente e ninguém havia aceitado, que se calhar a minha mulher tinha caído em si e pedido o divórcio. E imagino que, das vezes em que estive eu fora e a Catarina foi ela própria sozinha ao cinema, tenha acontecido a mesma coisa, salvo que ela nem se deu conta.
Quando eu tinha uns vinte anos e lia o Sete, o José Vaz Pereira foi ver um filme qualquer e, não encontrando o que dizer sobre ele, gastou dois parágrafos a descrever um rapaz que o tinha ido ver sozinho, coitado, sem uma namorada ou um amigo que o acompanhasse. Esses dois parágrafos, provincianos que fossem, tiveram em mim um efeito desproporcionado: embora eu não costumasse ir ao cinema sozinho, costumava ir sozinho ver o Sporting, apanhando o comboio de Paço D’Arcos e fazendo uma hora de 50 entre Algés e o estádio, com Bach e Vivaldi aos berros no walkman e uma estranha felicidade que talvez fosse exactamente por estar sozinho (e que durava mesmo depois de o Sporting perder, como era hábito então como agora). Só que aquele “coitado” marcou-me. “Coitado” é a condição que desde a infância eu mais me esforço por rechaçar, e foi preciso começar a trabalhar e a sair das redacções a desoras e a sentir-me física e mentalmente esgotado para ganhar o hábito de ir ao cinema à meia-noite.
Ia muito nos tempos do Quarteto, que era o meu cinema preferido. Mas fui noutros também. Fui no King, quando o King teve sessões a essa hora. Fui no Monumental, mais tarde – dezenas de vezes. Mas não fui em nenhum deles como fui nas Amoreiras. As Amoreiras eram o meu centro comercial quando eram o maior centro comercial de Lisboa, continuaram a ser o meu centro comercial quando se tornaram um centro comercial sombrio e sem movimento e continuam a ser o meu centro comercial hoje, que são o centro comercial mais beto e menos socialmente inclusivo da cidade. Sinto com estas paredes uma estranha intimidade, sei de cor onde ficam as lojas e, inclusive, alguma coisa dentro de mim me liberta de qualquer necessidade que não possa satisfazer aqui.




Mesmo quando estou na Terceira, onde gosto tanto da ideia de não haver centros comerciais, me permito ter saudades das Amoreiras, porque no fundo as Amoreiras não são um centro comercial. Mas, mesmo que as Amoreiras ficassem na Terceira, eu não iria ao cinema à meia-noite. Ir ao cinema à meia-noite é usufruir da solidão, e aquilo de que não se pode nunca usufruir na província, a insular como a continental, é a solidão. Apenas a cidade sabe usufruir da solidão, porque o campo não só tem medo como tem até vergonha da solidão, e isso é quase de certeza a pior das coisas que alguma vez poderemos dizer sobre ele.


* alguns destes textos são originalmente publicados no “Diário de Notícias”

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