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sábado, 24 de março de 2018

Obra de Ubiratan Machado mostra a evolução da produção editorial no país

'A legenda interior', de Harold Daltro; 'Paulicea desvairada', de Mário de Andrade;
e 'Pau Brasil', de Oswald de Andrade. (foto: A capa do livro brasileiro/Reprodução)

'A capa do livro brasileiro - 1820-1950' é contribuição decisiva para a compreensão da história da leitura no Brasil

Pablo Pires Fernandes

Apaixonado pelos livros, o jornalista, escritor e tradutor Ubiratan Machado tem publicada uma obra significativa sobre a história do livro no Brasil. Seu esforço de mapear a relação da sociedade com o livro e a leitura, em todos os seus aspectos, rendeu importantes contribuições: A vida literária no Brasil durante o Romantismo, A etiqueta de livros no Brasil, Dicionário de Machado de Assis, Pequeno guia histórico das livrarias brasileiras, entre outros. “Amo os livros e eles me recompensam abundantemente”, diz o colecionador, que prefere não ser chamado de bibliófilo, “atividade de milionários”.

Agora, está lançando A capa do livro brasileiro, uma edição monumental de mais de 600 páginas, com 1.707 reproduções coloridas. Editado em conjunto pela Ateliê Editorial e Sesi SP Editora, depois de quatro anos de trabalho, o volume abrange 130 anos de história, desde a primeira publicação encapada em brochura, em 1820, até a década de 1950. Seu esforço é minucioso e busca captar a evolução da produção gráfica brasileira, os desenvolvimentos técnicos e os saltos da indústria editorial e explicando como isso se refletiu nas capas dos livros. 

É clara a intenção do autor de destacar o que chama de “um estilo brasileiro de desenhar capas”. A fartura de imagens permite ao leitor perceber os reflexos de cada época e seus movimentos artísticos, a transição do romantismo e do art nouveau para o surgimento de um modernismo que vai ganhando autonomia em relação ao que se produzia na Europa. A produção de capas inclui artistas de primeira grandeza das artes plásticas nacionais: Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Cícero Dias, Guignard, Goeldi. E também revela aspectos menos conhecidos, como capas desenhadas pelo escritor Cornélio Penna, que refletem também a atmosfera densa e angustiada de seus romances. Ou ainda uma desenhada pelo mineiro de Cataguases Rosário Fusco, da geração da revista modernista Verde.

A obra detalha nos textos, sempre com referências às ilustrações, os aspectos gráficos, o contexto, as correntes e influências e sua relação com o público. Ubiratan Machado dedica capítulos específicos para alguns autores de capa que se destacaram e representaram marcos na evolução dessa linguagem. Entre esses gênios, não poderia faltar J. Carlos, Santa Rosa e Belmonte. O livro também guarda espaço para editoras que tiveram papel decisivo na evolução gráfica no país – José Olympio, Livraria do Globo, Editora Martins. A capa do livro brasileiro é um trabalho decisivo para a compreensão da história literária e editorial no país e possibilita uma visão abrangente sobre o tema e que deverá inspirar novas pesquisas e desdobramentos. O pesquisador deu entrevista ao Pensar, na qual aborda alguns temas trabalhados no livro.

Como avalia a pesquisa e as publicações sobre a história do livro no Brasil?
Há obras valiosas sobre a história do livro no Brasil, desde os trabalhos pioneiros de Rubens Borba de Moraes, mas ainda falta levantar e aprofundar muitos aspectos: história de editoras, de livrarias, o problema da distribuição do livro, uma história das traduções, levantamento de ilustradores e obras ilustradas etc. É trabalho para mais de uma geração de estudiosos.

A imprensa no Brasil, por tempos proibida pela corte, surgiu já, inevitavelmente, carregada de um viés político. Como foram as primeiras publicações e como isso se traduzia nas capas?
A impressão de livros no Brasil começa com a chegada da corte de dom João VI e a criação da Impressão Régia, mais tarde Imprensa Nacional, em 1808. Sessenta anos antes, em 1747, o tipógrafo português Antonio Isidoro da Fonseca teve o desplante de desafiar a metrópole editando livros no Brasil. Foi obrigado a deixar o país e regressar a Portugal, com sua prensa e tipos. A capa de brochura surge na década de 1820, não apenas aqui, mas em todo o mundo. Até então, os livros saíam das tipografias tendo como primeiro elemento visual a folha de rosto. Os livreiros ou os clientes tratavam de encaderná-los. Naquela década, alguém teve a ideia de lançar a capa de brochura, com papel mais encorpado e resistente do que o miolo, reproduzindo a folha de rosto. A intenção era  proteger o miolo do livro. Com o tempo, a capa foi se enriquecendo e se distinguindo da folha de rosto, ganhando requintes gráficos e tornando-se elemento de atração do leitor.

Qual era a relação entre o que era feito na Europa e o que era editado no Brasil? Podemos afirmar que há uma adaptação e um modo específico e brasileiro de se produzirem capas?
O surgimento de um estilo brasileiro de capa foi gradual, eclodindo na década de 1910 e se firmando nos anos 1920. É a época em que editores como Leite Ribeiro e Monteiro Lobato, de maneira sistemática e não apenas circunstancial, como antes, investem em capas coloridas – com cores fortes, bem vivas, como os brasileiros gostam, – e desenhos de artistas tipicamente brasileiros, molequemente brasileiros, como um Raul, um Kalisto, um J. Carlos, um Belmonte. Vendo os seus trabalhos, ninguém os confunde com a obra de um artista europeu, norte-americano ou mesmo sul-americano.

No livro, o senhor afirma que houve alguma resistência à incorporação de ilustração nas capas. Como ocorreu essa passagem?
As capas ilustradas surgem como uma evolução natural, numa época em que as revistas ganham cada vez mais ilustrações. Seguia-se uma tendência vitoriosa em todo o mundo, que causou alguma reação no Brasil. Os mais conservadores achavam que a ilustração na capa tirava a seriedade do livro e devia se limitar a obras de literatura infantil.

Como é a relação das capas dos livros e o que era publicado em revistas e jornais, em termos de evolução gráfica? Como um e outro se influenciou? 
Durante bastante tempo, em particular no século 19, capas de livros e de revistas evoluíram em paralelo, sendo bastante semelhantes. Fácil de explicar: Os artistas que criavam capas eram os mesmos que desenhavam para a imprensa. Aos poucos, livros e revistas foram se distinguindo, descobrindo suas peculiaridades.

Como se constituiu a função específica do capista?
No início, desenhar capas era um bico. A atividade de capista, no Brasil, como profissão, só começa a se constituir na década de 1930, com a filosofia implantada por editoras como a José Olympio, a Globo e a Martins.

Como o modernismo de 22 foi expresso em termos da produção gráfica e se refletiu em capas de livros?
Pode-se dizer que o modernismo escandalizou o burguês em todas as suas manifestações. As capas de alguns livros causaram tanta irritação como a Semana de Arte Moderna, com seus poemas provocativos e seus poetas barulhentos. A capa de Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade, desenhada por Guilherme de Almeida, com seus losangos coloridos, foi comparada por um crítico enfurecido a um manual de tinturaria.

O papel de Monteiro Lobato como editor não é muito conhecido. Como ele inovou a produção editorial?
Monteiro Lobato foi um editor revolucionário e um dos principais renovadores da capa do livro brasileiro, mas não o primeiro, como se crê. Ele se aproveitou, com muito discernimento e competência, do momento de renovação que latejava na década de 1910. O bonde já vinha embalado, ele o tomou em movimento e soube se tornar seu mais ilustre passageiro.

Como era a relação entre artistas – Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Cícero Dias etc – e a produção gráfica para livros?
Eles fazem parte de um grupo de artistas plásticos que, por prazer, necessidade econômica ou por pressão de amigos escritores, desejosos de valorizar seus livros com trabalhos mais requintados, colaboram, em certo momento, no enriquecimento da capa do livro brasileiro, introduzindo novidades estéticas nem sempre bem compreendidas, mas que acabam aceitas, muitas vezes, por aqueles que os atacaram. É o caso de Monteiro Lobato, desancando a arte de Anita Malfatti no célebre artigo “Paranoia ou mistificação”, e mais tarde, editando livros com capa dessa artista.

O que falar do gênio J. Carlos?
J. Carlos está para as artes gráficas como Machado de Assis para a literatura brasileira.

O que Santa Rosa representou para a linguagem das capas de livros brasileiros? 
Santa Rosa revolucionou o livro brasileiro, em todos os seus aspectos, determinando seu tamanho, atuando como diagramador, ilustrador e paginador. Um aspecto dessa atividade são as suas capas, renovadas constantemente, sendo as mais notáveis, a meu ver, aquelas nas quais palpita a sua inquieta e pungente visão da realidade social brasileira.

A incorporação da linguagem fotográfica e do cinema pode ser vista como algo apelativo ou representa uma inovação?
A presença crescente do cinema na vida moderna influenciou também a capa dos livros. Nos anos 1930, eram comuns capas com cenas de filmes de sucesso e belas atrizes, em geral hollywoodianas. Assim, para a capa de seu romance Clarissa, Érico Verissimo pediu ao capista João Fahrion que desenhasse a personagem com as feições da atriz Sylvia Sydnei.



A CAPA DO LIVRO BRASILEIRO
De Ubiratan Machado
Ateliê Editorial/Sesi SP Editora
664 páginas
R$ 320

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