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sexta-feira, 13 de abril de 2018

Em evento literário sobre memória e tempo presente em BH, escritor Mia Couto faz tributo à Marielle Franco

Mia Couto falou sobre a importância do Brasil e sua formação (foto de Marcos Vieira/EM/D.A.Press)

Moçambicano veio lançar seu mais recente trabalho, o livro 'O bebedor de horizontes', que encerra a trilogia 'As areias do imperador'

Ana Clara Brant

Marielle Franco segue presente e vai continuar a ser lembrada. Pelo menos no que depender de um dos escritores mais aclamados da língua portuguesa, o moçambicano Mia Couto. O autor de livros como Terra sonâmbula, A confissão da leoa e O gato e o escuro, esteve na noite desta quinta-feira (12), participando de um bate-papo na Casa Fiat de Cultura para falar sobre o tema políticas da memória no tempo presente e dedicou sua fala à vereadora e ao motorista Anderson Gomes que foram assassinados em março no Rio de Janeiro.

O evento, promovido pela Casa Fiat e a Fundação Torino, estava marcado para às 19h30. Já às 9h, admiradores da obra de Mia estavam no local esperando as senhas que só foram distribuídas às 18h30. O auditório atingiu a lotação máxima de 200 lugares e muita gente ficou do lado de fora. No total, 550 pessoas estiveram no local, sendo que muitos tiveram que assistir à palestra no telão que foi instalado no hall. O escritor fez questão de ir lá fora e cumprimentar quem não pode entrar. "Eu sempre penso que não vai vir ninguém (risos). Fiquei  muito tocado com tanta gente. Fui até o lado de fora para conversar com quem não entrou e disse que só há uma maneira de resolver isso. É eu voltar mais vezes. E farei isso com o maior prazer", declarou.

Muita gente acabou assistindo à palestra pelo telão no hall da Casa Fiat (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

O escritor - que também estava lançando 'O bebedor de horizontes', livro que encerra a trilogia As areias do imperador', comentou sobre como a memória e o tempo aparecem em suas obras, e de que maneira ele costura tempos, pessoas e mundos. "Nesse meu último livro, por exemplo, fiz uma pesquisa. Fui buscar essa memória com as pessoas mais antigas. Mas quando me deparei com elas, vi muito mais esquecimento do que memória e descobri que não há só um passado, mas uma infinidade deles", analisou.

Mia Couto resgatou suas memórias pessoais como a do avô português que nunca conheceu já que os pais foram obrigados a se mudar para Moçambique. Ele revelou que uma de suas lembranças mais fortes na infância foi quando viu seu pai chorar ao receber uma carta de Portugal dando a notícia justamente da morte do avô. "Cheguei perto dele e perguntei se o vovô havia morrido. E ele me respondeu. 'Ele morreu lá. Aqui ele continua vivo.' De certa maneira continuava porque ele estava presente nas histórias contadas sobre ele e sobre os demais parentes que moravam em Portugal. O mais curioso é que isso acabou servindo de inspiração para uma de minhas obras, 'Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra', sobre um jovem que retorna às suas origens após a notícia da morte do avô, que de certa maneira estava vivo", explicou.

O escritor moçambicano respondeu às perguntas de fãs no evento (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

O moçambicano - vencedor de prêmios importantes como o Camões - falou sobre como a guerra civil em Moçambique (1977-1992) afetou sua vida e se fez presente em sua literatura seja nos livros 'Terra sonâmbula', 'O último voo do Flamingo' e 'A varanda do Frangipani'."Mesmo depois de tanto tempo, ainda me custa muito falar dessa guerra. Das nossas casas ouvíamos os barulhos das explosões, víamos carros com dezenas de feridos e mortos. Eu perdi muitos amigos. A minha única saída era a poesia. E esses livros foram importantes nesse sentido", frisou.

Mia Couto também respondeu às perguntas mediadas por Maria Nazareth Fonseca, professora de literaturas africanas de língua portuguesa da PUC-Minas e especialista na obra do moçambicano. Ele falou sobre o seu caótico processo de escrita, sobre inspirações, como concilia seu ofício de biólogo com o de escritor e como o Brasil foi e é importante em sua formação. "O Brasil tem uma importância na literatura lusófona - seja em Portugal, Angola, Moçambique - que o próprio Brasil desconhece. Recebemos influência de grandes nomes como Jorge Amado, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade,  tantos outros. Infelizmente, nunca vi o Brasil tão acabrunhado, triste. Não sou político. Não quero fazer esse papel, mas acho que vocês vão voltar a se  reencontrar e voltar a sonhar", salientou.

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