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quinta-feira, 21 de março de 2019

Da minha mesa de trabalho


A chuva que batia na janela e uma foto sugestiva para o texto

A chuva batia forte na janela do quarto a que denomino por meu escritório. Mesmo assim vesti a indumentária adequada para a habitual caminhada, ritual diário, mas que, por vezes, é interrompido quando a intempérie é mais forte, como aconteceu no dia de hoje. Ainda desci até ao pátio do condomínio, mas, o melhor que fiz, foi tomar uma "bica" (os brasileiros não conhecem este termo) no bar mais perto e, depois, voltar para casa com a tristeza estampada no rosto por não ter caminhado durante aquele tempo que me é permitido. Claro que passei para outro ritual diário, o computador, entrando no facebook para ver algumas fotos, sugestivas para o texto que pretendia desenvolver.

Começando pelas fotos que nos presenteou Fernando da Costa (do Canadá) durante uma das suas recentes permanências na ilha Terceira. E a Rua Baixinha foi mesmo ótima para recordarmos a figura do Mestre Alberto Araújo. Lembro-me que a rapaziada quando em grupo por ali passava, entrava com esta: canta Alberto, canta! Na verdade, "tio" Alberto cantava bem, sobretudo fados da Divina Amália Rodrigues. Com as suas bonitas vestes, de seda fina, Alberto Araújo sempre arranjava a sua casa (cheirosa com um belo perfume) para as suas habituais visitas, mormente os meninos que, à noite, lá iam para aprender a dançar. Aqui, deixava de ser "tio" Alberto para se apresentar como Mestre Alberto. Dois para frente, dois para traz. E o resto? O resto penso que todos já sabem esta estória. Um dia, um grupo de rapazes (eu incluído) do Corpo Santo pediu ao Mestre Alberto para ensinar a dançar. Tudo bem, mas sempre foi adiantando: estes três dias que se seguem, nada feito, porque vêm os “meninos da cidade”. Tivemos que aceitar, óbvio. Mas, entretanto, decidimos saber quem-são-quem os "meninos da cidade"? Então, fomos todos para o quintal do Fernando (tio do Hélder Alvernaz) e escondidos vimos naquela noite quem eram os "meninos da cidade". Não lhes vou contar porque alguns já faleceram, tal como o Mestre Alberto. Mas que era gente fina, disso não tenham dúvidas. Até houve quem mandasse esta boca: eles sempre precisam do Bairro Oriental da Cidade. Enfim, as tais rivalidades, as tais invejas, as tais ciumeiras, que sempre existiam (e hoje não há?). Mas o melhor de tudo isto é que esperamos pela saída dos “meninos da cidade” e, em coro, fomos cantando: dois para frente, dois para traz. O resto já sabem, creio eu. Foi uma máxima que ficou célebre.
Mas, de Mestre Alberto Araújo, fica na memória de todos a confecção de excelente culinária, para todos os gostos e paladares. Em banquetes, em jantares de aniversários, em festas de clubes, todos comeram sem distinção de classes sócias. Aqui o ritual mudou: dois para frente para apanhar a comida no prato e dois para traz para sentar-se à mesa e saboreá-la. Naturalmente, com direito a duas, três ou mais repetições.

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